Comunidades fazem a diferença na resposta ao HIV

Redentora Mariño é membro da comunidade transativista no Panamá e sua história é um exemplo de como as ações comunitárias são capazes de salvar vidas todos os dias. Aos 15 anos, ela foi expulsa de casa, incapaz de terminar a escola e forçada a procurar mecanismos de sobrevivência contra sua vontade.

Com fome e em condições precárias, ela teve que se virar para as ruas para seu sustento. Em uma operação policial, ela recebeu apoio de uma organização liderada por outros e outras ativistas trans, que a ensinaram sobre seus direitos. Hoje, a ativista Redentora é uma liderança em sua comunidade, realizando atividades com colegas para vincular estas pessoas aos serviços de prevenção e assistência para o HIV.

Há pouco tempo, ela foi reconhecida por sua solidariedade e trabalho em sua comunidade. Ela agora vive na Cidade do Panamá, concluiu o ensino médio e tem um emprego estável e decente. Graças às ações de base comunitária, sua vida está muito melhor agora.
A história de Redenção se confundo com a história de muitas pessoas trans que vivem na América Latina e no Caribe.

Em todo o mundo, organizações lideradas por pessoas que vivem com HIV ou são afetadas pelo vírus estão defendendo os direitos humanos e prestando serviços de prevenção, tratamento, assistência e apoio relacionado a HIV a seus pares. Somente em 2018, as organizações de liderança comunitária ajudaram a garantir o tratamento do HIV para mais de 23 milhões de pessoas ao redor do globo.

Este ano, a celebração do Dia Mundial contra a AIDS (1º de dezembro) nos oferece a oportunidade de reconhecer o papel fundamental que as comunidades desempenham na resposta ao HIV e à aids em nível local, nacional, regional e internacional.

São comunidades de pessoas vivendo com HIV ou afetadas pelo vírus, principalmente comunidades de populações-chave, juntamente com educadores, conselheiros, agentes comunitários de saúde, prestadores de serviços em domicílio, organizações da sociedade civil e ativistas de base.

A resposta ao HIV não pode se sustentar em ambientes onde os direitos das populações vulneráveis à epidemia e populações-chave não estão protegidos, onde as organizações, redes e grupos comunitários são criminalizados ou onde as opiniões populares refletem estigma e discriminação.

Apenas 50% dos países latino-americanos e 37% dos países caribenhos incluíram em suas estratégias nacionais intervenções para responder à violência de gênero e ao HIV. Esses números evidenciam a necessidade urgente de maior apoio para fortalecer e aumentar as capacidades de mobilização e advocacy de organizações de liderança comunitária. Devemos eliminar as barreiras que as impedem de realizar esse trabalho: restrições ao registro legal e fraca cooperação entre a sociedade civil e governos, incluindo falta de financiamento público a de pactuação social.

Atualmente, é necessária uma forte defesa, liderada por redes, grupos e organizações de liderança comunitária, para garantir que o HIV e a AIDS continuem sendo uma prioridade na agenda política, que os direitos humanos sejam respeitados e que as pessoas encarregadas de tomar decisões e aquelas encarregadas de executá-las assumam seus compromissos.

Seja para alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 (Boa Saúde e Bem-Estar), o ODS 5 (Igualdade de Gênero), o ODS 10 (Redução das Desigualdades) ou o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Fortes), o papel de organizações de liderança comunitária é mais importante do que nunca. Essas comunidades demandam participar da liderança na prestação dos serviços que são voltados para elas.

As redes comunitárias confiam nas pessoas a quem servem e as organizações de liderança comunitária são o instrumento mais eficaz de alcançar pessoas vivendo com HIV e populações-chave porque estão, na grande maioria das vezes, lidando com seus pares.

Em um mundo com crescentes desigualdades, fragilidade e discriminação, a liderança comunitária garante que a resposta ao HIV ainda siga relevante, que as pessoas permaneçam no centro das atenções e políticas e que ninguém seja deixado para trás.

O Unaids está comprometido em continuar colaborando com os países e com as redes, grupos e organizações de base comunitária que atuam em seus territórios, enquanto busca também evidências capazes de gerar informações de qualidade que possam ser usadas nas tomadas de decisão, que melhorem o desenho de políticas públicas em todos os países e que, simultaneamente, ajudem a determinar as necessidades de financiamento e os investimentos inteligentes para que se alcance a sustentabilidade de planos e programas eficazes e eficientes.

César Nuñez
Diretor regional do Unaids para América Latina e o Caribe