Resposta global ao HIV perde força enquanto aumenta o risco de agravamento da epidemia

O relatório especial “Unidas e Unidos para acabar com a AIDS”, divulgado pelo UNAIDS na 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro, entre os dias 27 e 31 de julho, mostra que a redução do financiamento internacional e os cortes nos serviços comunitários e de prevenção ao HIV provavelmente levarão a um ressurgimento da epidemia.

Embora as novas infecções por HIV e as mortes relacionadas à AIDS estejam nos níveis mais baixos dos últimos 30 anos, a resposta atual ao HIV está fragilizada. Os esforços para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 estão em risco, a menos que a solidariedade global seja restaurada e as desigualdades sejam abordadas. Em 2025, globalmente, houve 1,2 milhão de novas infecções por HIV, mas o progresso é desigual. As novas infecções por HIV aumentaram em três regiões e em 21 países em 2025.

Cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV não estavam em tratamento, e quase metade de todas as crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral em 2025. Cerca de 570 mil pessoas morreram por doenças relacionadas à AIDS em 2025.

Sete países alcançaram uma redução de quase 80% nas novas infecções desde 2010, e 11 países atingiram as metas de tratamento 95-95-95, demonstrando que o progresso é possível.

A ciência e a inovação oferecem uma grande oportunidade. O mundo se aproxima de uma revolução na prevenção do HIV, com medicamentos para a prevenção que oferecem um nível de proteção contra o HIV semelhante ao de uma vacina. Medicamentos injetáveis mensais e semestrais estão chegando ainda de forma lenta ao mercado, e comprimidos de uso mensal encontram-se em estágios avançados de testes. O que já está disponível e o que está em desenvolvimento são avanços extraordinários; no entanto, a escala e o acesso equitativo continuam sendo o maior desafio.

Winnie Byanyima na AIDS 2026: “Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível.”

O Brasil aumentou em 41% o número de pessoas que acessaram medicamentos de prevenção ao HIV pelo menos uma vez no último ano. Etiópia e Uganda também adotaram medidas para ampliar o acesso por meio de financiamento doméstico e de outras fontes, enquanto a África do Sul continua negociando preços para as injeções preventivas semestrais de lenacapavir.

No entanto, apesar de ter participado dos ensaios clínicos do lenacapavir, o Brasil não recebeu uma licença voluntária da fabricante Gilead que permita preços mais acessíveis ou a introdução de versões genéricas, e está considerando o uso de licenciamento compulsório.

A UNITAID, o Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária e demais parcerias reuniram recursos para iniciar a implementação do lenacapavir com o objetivo de alcançar 3 milhões de pessoas até 2028, o que é uma notícia bem-vinda. Entretanto, isso representa apenas uma pequena fração da necessidade existente, alcançando atualmente apenas alguns milhares de pessoas. O UNAIDS estima que 20 milhões de pessoas precisam ter acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para gerar um impacto real na redução das novas infecções por HIV.

A Overseas Development Assistance (ODA) entrou em colapso. A assistência global ao desenvolvimento vinda de diversos países caiu 23% em 2025 — a maior queda já registrada — e uma grande parte dessa redução ocorreu na área da saúde global, afetando fortemente os programas de HIV.

Países africanos de baixa renda, com altas dívidas e com elevada incidência da epidemia dependiam da AOD para uma resposta eficaz à AIDS em seus países. Muitos desses países dependiam de financiamento externo para mais de 90% das ações relacionadas a epidemia.

A era de depender da ajuda internacional acabou”, declarou Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS. “Os países não podem esperar e não podem retroceder. O mundo deve corrigir urgentemente o sistema financeiro que já não é mais funcional e acelerar a reestruturação da dívida para que os governos possam investir no que mais importa: a saúde, a educação e o futuro de suas populações.

O financiamento internacional para o HIV proveniente de diversos países caiu mais de US$ 1,5 bilhão, passando de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, uma redução de 18% e o menor nível registrado em quase duas décadas.

Os serviços de prevenção ao HIV eram amplamente financiados por recursos internacionais. Na África Subsaariana, por exemplo, 80% do financiamento para prevenção veio de financiamento internacional. Organizações lideradas pela comunidade receberam até 25% da assistência internacional para HIV em 2024. Pesquisas mostram que, em alguns países, essas organizações alcançaram 22% das pessoas vivendo com HIV e até 60% das populações marginalizadas com serviços essenciais para manutenção de prevenção e tratamento.

Na ausência do apoio de países e organismos doadores e sem investimentos domésticos mais robustos, os serviços de prevenção e a prestação de serviços de HIV liderados pela comunidade correm risco de colapso total. O financiamento para preservativos foi reduzido em mais de 90% em alguns países. Um estudo realizado em 2026, abrangendo 47 países, identificou reduções acentuadas nos serviços comunitários:

  • 50% nos serviços comunitários de apoio à prevenção baseada em medicamentos e ao cuidado do HIV;
  • 85% nos serviços destinados a homens gays e outros homens que fazem sexo com homens;
  • 82% nos serviços para profissionais do sexo;
  • 72% nos serviços voltados a sobreviventes de violência baseada em gênero.

Os direitos humanos estão sob ataque e observa-se um retrocesso em direitos, incluindo os direitos sexuais e reprodutivos de mulheres, meninas e populações marginalizadas. Pela primeira vez desde que o UNAIDS começou a monitorar essas tendências, a criminalização das populações marginalizadas aumentou.

Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações sexuais consensuais entre pessoas do mesmo sexo, e o Senegal aumentou as penalidades para essas relações em 2026.

Também em 2026:

  • 168 países criminalizavam o trabalho sexual;
  • 152 países criminalizavam a posse de pequenas quantidades de drogas;
  • 66 países criminalizavam relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo;
  • 14 países criminalizavam pessoas trans.

Não é possível acabar com a AIDS enquanto se criminalizam as pessoas que vivem com HIV e aquelas mais vulneráveis à infecção”, afirmou Winnie Byanyima. “Quando as pessoas têm medo de prisão, violência ou discriminação, elas se afastam dos serviços de HIV. Os direitos humanos não são algo separado da resposta ao HIV; eles são essenciais para o seu sucesso.

Apesar dos retrocessos em direitos humanos, em junho de 2026, 149 Estados-Membros adotaram uma Declaração Política sobre HIV e AIDS progressista, alinhada à Estratégia Global para a AIDS do UNAIDS 2026-2031 e às metas para 2030.

As novas metas para 2030 incluem:

  • 40 milhões de pessoas em tratamento;
  • 20 milhões de pessoas com acesso à prevenção baseada em antirretrovirais;
  • Menos de 10% das pessoas vivendo com HIV ou em risco de infecção sofrendo estigma e discriminação;
  • Menos de 10% das mulheres e meninas e das pessoas vivendo com HIV ou em risco enfrentando desigualdade de gênero e violência;
  • Menos de 10% dos países mantendo ambientes legais e políticos punitivos que neguem ou limitem o acesso aos serviços de HIV.

Se totalmente alcançados, esses compromissos evitarão 3,2 milhões adicionais de novas infecções por HIV e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.

Apesar dos enormes desafios, acabar com a AIDS ainda está ao nosso alcance”, disse Winnie Byanyima. “Na AIDS 2026, o UNAIDS conclama todas as parcerias e governos a se remobilizarem e avançarem para alcançar as metas ambiciosas estabelecidas na Declaração Política. Isso exigirá solidariedade renovada, financiamento sustentável e compromisso inabalável com os direitos humanos. A escolha diante de nós é nítida: recuar e arriscar um ressurgimento da epidemia, ou repensar, reconstruir e avançar para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.