Conselho do UNAIDS debate futuro da resposta global ao HIV após nova Declaração Política da ONU

Apenas uma semana após os Estados-Membros das Nações Unidas adotarem uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, a 58ª reunião da Junta de Coordenação do Programa (PCB) do UNAIDS deu início à próxima etapa para definir como o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS irá evoluir para apoiar a implementação desses compromissos.

Durante três dias de reuniões, governos, comunidades e parcerias discutiram como fortalecer o UNAIDS diante das mudanças no cenário global da saúde e do financiamento internacional. Ao mesmo tempo, reafirmaram que a resposta ao HIV continua a exigir liderança política, coordenação multissetorial, prestação de contas e participação significativa das comunidades.

As discussões também marcaram um importante avanço no trabalho do Grupo de Trabalho independente do PCB. O grupo apresentará, em outubro, recomendações finais sobre a futura estrutura e governança do UNAIDS.

Compromisso global permanece essencial

A nova Declaração Política reafirma o compromisso internacional de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030. Nesse contexto, os membros da Junta destacaram que o modelo operacional do UNAIDS precisa evoluir sem perder seus diferenciais e sua capacidade de coordenar a resposta global.

“Mesmo em um contexto político global complexo, o UNAIDS continua tendo esse poder único de unir o mundo em torno da visão compartilhada de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030”, afirmou Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS.

Winnie Byanyima: “Não cumpriremos essa meta apenas por meio das instituições. Vamos cumpri-la por meio das pessoas, das comunidades que se recusam a ser invisíveis, das equipes que levam essa missão adiante todos os dias e de lideranças governamentais e organizações parceiras que agem com coragem diante das incertezas.

Na abertura da reunião, Pascale Grotenhuis, vice-ministra e diretora-geral de Cooperação Internacional do Reino dos Países Baixos, destacou a importância de preservar a identidade do UNAIDS.

Pascale Grotenhuis: “O Reino dos Países Baixos reafirma a importância de promover uma transição sustentável e integrar o UNAIDS ao sistema das Nações Unidas e além, preservando aquilo que o torna único: sua abordagem liderada pelas comunidades, fundamentada nos direitos humanos e centrada nas populações-chave.

A embaixadora Erica Schouten, representante permanente dos Países Baixos junto às Nações Unidas em Genebra e presidente da reunião, reforçou a necessidade de renovar a visão da resposta global. “É hora de construir uma nova visão e uma nova narrativa para a resposta global ao HIV, profundamente enraizadas nas esperanças, nos valores e nas realidades do nosso tempo.

Reformas devem fortalecer a resposta ao HIV

As pessoas participantes reconheceram que a resposta ao HIV enfrenta um momento decisivo. Para muitos países, fortalecer a cooperação internacional continua sendo uma prioridade.

Albert Francis Domingo, subsecretário de Saúde e chefe de gabinete do Departamento de Saúde das Filipinas, lembrou que o país enfrenta uma das epidemias de HIV com crescimento mais acelerado do mundo. “Continuamos vivenciando uma das epidemias que mais cresce no mundo, a do HIV, com cerca de 50 novas infecções todos os dias“, afirmou.

Albert Francis Domingo: “O governo das Filipinas reconhece que a resposta global ao HIV atravessa um momento crítico. Por isso, apoiamos reformas que aumentem a eficiência e eliminem barreiras institucionais. Ao mesmo tempo, essas mudanças devem preservar as vantagens comparativas exclusivas do Programa Conjunto.

Entre essas vantagens está a participação formal da sociedade civil no PCB. A representação das organizações não governamentais garante que as comunidades participem das decisões sobre a resposta à epidemia.

Precisamos investir nas comunidades, proteger o espaço cívico e os direitos humanos e garantir que as pessoas que vivem essas realidades sejam ouvidas, apoiadas e participem efetivamente da tomada de decisões“, afirmou Ulrich Mvate, representante da Delegação Africana de ONGs.

O UNAIDS agradeceu, também, às organizações historicamente doadoras pelo apoio contínuo e reconheceu os países que financiam a manutenção dos escritórios nacionais do Programa, demonstrando forte compromisso com a resposta ao HIV.

Direitos humanos e pessoas que usam drogas

A sessão temática da reunião concentrou-se na sustentabilidade da resposta ao HIV e na proteção dos direitos humanos das pessoas que usam drogas. Atualmente, cerca de 8% das novas infecções por HIV no mundo ocorrem entre pessoas que usam drogas injetáveis. Esse grupo apresenta uma probabilidade 34 vezes maior de infecção pelo HIV quando comparado à população adulta em geral.

Segundo Anton Basenko, diretor executivo da Rede Internacional de Pessoas que Usam Drogas (INPUD), a redução do financiamento compromete diretamente os serviços essenciais.

A resposta ao HIV já não enfrenta apenas uma crise de financiamento. Ela está se tornando uma crise de sobrevivência para muitas pessoas que usam drogas“, afirmou, citando a escassez de insumos para redução de danos, o fechamento de programas de distribuição de seringas e agulhas e o aumento da criminalização. “Nossa mensagem é simples: se as comunidades desaparecerem, a resposta ao HIV desaparecerá com elas.

Próximos passos

O PCB voltará a se reunir em uma sessão especial, em outubro, quando o Grupo de Trabalho independente apresentará suas recomendações para o futuro do UNAIDS. Em seguida, a Junta realizará sua reunião ordinária de dezembro, dando continuidade às decisões sobre a evolução do UNAIDS e o fortalecimento da resposta global ao HIV.