
A abertura da Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, na última segunda-feira (22), ocorre em um momento de incerteza para a resposta global à AIDS. Décadas de avanços tornaram possível o que antes parecia inalcançável: milhões de vidas foram salvas, as novas infecções por HIV diminuíram e o acesso ao tratamento foi globalmente ampliado.
No entanto, enquanto lideranças globais se reúnem nos Estados Unidos para adotar uma nova Declaração Política das Nações Unidas sobre HIV/AIDS — a última antes do prazo estabelecido para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 — esses avanços estão cada vez mais ameaçados pelos cortes de financiamento e pelos retrocessos nos direitos humanos.
Diante desse cenário, uma questão central se impõe: o mundo protegerá as conquistas alcançadas com tanto esforço e acelerará o caminho para o fim da AIDS?
“Não podemos falhar, porque sabemos exatamente o que precisa ser feito: fortalecer o multilateralismo; manter o financiamento internacional enquanto os países ampliam seus próprios investimentos; proteger os direitos das pessoas vivendo com HIV; permitir que as comunidades liderem as respostas para suas populações; e impulsionar a ciência para que as inovações cheguem o mais rapidamente possível a todas as pessoas que delas necessitam. Se fizermos isso, podemos acabar com a AIDS.”, afirmou Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS.

Novos dados de 2025 divulgados pelo UNAIDS antes da reunião demonstram que investimentos sustentados, avanços científicos e iniciativas lideradas pelas comunidades produziram resultados extraordinários. Desde 2010, as mortes relacionadas à AIDS caíram 56%. Além disso, as novas infecções por HIV diminuíram 43%. Atualmente, 32,1 milhões de pessoas têm acesso ao tratamento, o equivalente a 78% das 40,9 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo.
“A resposta multilateral global ao HIV tornou-se não apenas uma das maiores histórias de sucesso das Nações Unidas, mas também uma das realizações mais notáveis da história da saúde pública global”, declarou Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Apesar dos avanços, os novos dados do UNAIDS mostram que o cenário permanece frágil. Quase 9 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não recebem tratamento. Em 2025, a assistência internacional para o desenvolvimento registrou queda de 23%, a maior já registrada. Caso os recursos não sejam mantidos, existe um risco significativo de interrupções no tratamento do HIV, o que poderá provocar aumento de novas infecções e mortes.
Entre 2024 e 2025, os programas de testagem para HIV sofreram redução de 22% em contextos de alta incidência da epidemia. Em alguns casos, os recursos destinados à aquisição de preservativos foram reduzidos em mais de 90%.
“Esta reunião é uma oportunidade para demonstrar que, mesmo em tempos difíceis, a comunidade internacional pode se unir novamente em torno da ciência, da dignidade humana, da solidariedade e da responsabilidade compartilhada”, afirmou Amina Mohammed, vice-secretária-geral das Nações Unidas, em mensagem apresentada em nome de António Guterres, secretário-geral da ONU.

Os recentes cortes de financiamento promovidos por diversos governos e organismos doadores afetaram severamente os serviços de prevenção do HIV e as iniciativas lideradas pelas comunidades. Ao mesmo tempo, a criminalização das populações-chave voltou a crescer pela primeira vez desde que o UNAIDS começou a monitorar essa tendência. Como consequência, muitas das populações mais expostas ao HIV enfrentam dificuldades para acessar serviços essenciais.
Entre elas estão meninas e mulheres jovens, gays e outros homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e pessoas que usam drogas injetáveis.
“O progresso é real, mas também é frágil. Sem novos compromissos e ações concretas, corremos o risco de assistir ao ressurgimento da epidemia. Serviços liderados pela comunidade estão desaparecendo e programas de prevenção estão sendo reduzidos. Em muitas partes do mundo, os compromissos com a igualdade de gênero, a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos, bem como a inclusão das populações-chave, estão sendo enfraquecidos”, afirmou Keren Dunaway, da Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV.

Apesar dos desafios, existem importantes oportunidades para acelerar o progresso. O financiamento doméstico para a resposta ao HIV aumentou de 28% em 2010 para 52% em 2024. Ainda assim, esse crescimento não substitui a necessidade da solidariedade global.
Iniciativas regionais, como o Accra Reset e o African Union Roadmap to 2030, representam novos modelos de cooperação para o desenvolvimento. Além disso, novas tecnologias estão se tornando disponíveis, especialmente os medicamentos de longa duração para prevenção do HIV, como o lenacapavir. Essas inovações têm potencial para acelerar significativamente o fim da AIDS. No entanto, seu impacto dependerá da implementação em larga escala e da ampliação da produção regional [de medicamentos].
“Assim como uma geração anterior transformou uma crise em ação, devemos transformar a incerteza de hoje no progresso de amanhã. As futuras gerações nos julgarão pela nossa capacidade de encontrar coragem para acabar com a AIDS quando era possível. O mundo já avançou demais e ainda há muita coisa e jogo. E a oportunidade é valiosa demais. Este não é o momento de desistir. Devemos concluir o trabalho”, afirmou Sandra Thurman, ativista da resposta à AIDS.
A Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre HIV/AIDS acontece entre os dias 22 e 23 de junho. Durante o encontro, os Estados-Membros da ONU discutirão uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS, que orientará a resposta global à epidemia pelos próximos cinco anos.
A Declaração Política de 2026 deverá estabelecer novas metas globais para 2030. A expectativa é que essas metas reflitam os objetivos definidos na Estratégia Global de AIDS 2026–2031 e reafirmem o compromisso dos Estados-Membros das Nações Unidas de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.