
O UNAIDS lançou hoje seu Relatório Global sobre a AIDS 2025 “AIDS, Crise e o Poder de Transformar”, que mostra que uma crise histórica de financiamento ameaça décadas de progresso, a menos que os países façam mudanças radicais nos programas e no financiamento do HIV.
O relatório destaca o impacto que os cortes repentinos e em grande escala do financiamento dos doadores internacionais estão causando nos países mais afetados pelo HIV. No entanto, também apresenta alguns exemplos inspiradores de resiliência, com países e comunidades se mobilizando diante das adversidades para proteger os ganhos alcançados e impulsionar a resposta ao HIV.
Cerca de 25 dos 60 países de baixa e média renda incluídos no relatório indicaram aumentos nos orçamentos nacionais para suas respostas ao HIV em 2026. O aumento coletivo estimado entre os 25 países é de 8% em relação aos níveis atuais, o que se traduz em aproximadamente US$ 180 milhões – cerca cerca de R$ 990 milhões – de em recursos domésticos adicionais. Isso é promissor, mas não suficiente para substituir a escala do financiamento internacional em países fortemente dependentes.
Apesar dos progressos significativos na resposta ao HIV em 2024, o enfraquecimento do consenso sobre o financiamento e os déficits significativos e abruptos nos recursos da resposta ao HIV em 2025 provocaram perturbações generalizadas nos sistemas de saúde e cortes nos profissionais de saúde da linha da frente, interrompendo os programas de prevenção do HIV e comprometendo os serviços de tratamento do HIV.
Só em Moçambique, mais de 30 mil profissionais de saúde foram afetados e afetadas. Na Nigéria, o início da profilaxia pré-exposição (PrEP), medicamento usado para prevenção ao HIV, caiu de 40 mil para 6 mil pessoas/mês. Se os serviços de tratamento e prevenção do HIV apoiados pelos EUA entrarem em colapso total, o UNAIDS estima que poderão ocorrer 6 milhões de novas infeções por HIV e 4 milhões de mortes relacionadas à AIDS além das previstas entre 2025 e 2029.
“Não se trata apenas de uma lacuna no financiamento, é uma bomba-relógio”, disse Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS. “Vimos serviços desaparecerem quase instantaneamente. Houve demissão de profissionais de saúde. E as pessoas, especialmente crianças e populações-chave, estão sendo excluídas dos cuidados de saúde.”
Mesmo antes das interrupções em grande escala dos serviços, os dados relatados em 2024 mostram que, em 2023, 9,2 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não tinham acesso a serviços de tratamento que salvam vidas. Entre elas, estão 620 mil crianças de 0 a 14 anos vivendo com HIV, mas sem tratamento, o que contribuiu para 75 mil mortes relacionadas à AIDS nessa faita etária em 2024.
Em 2024, 630 mil pessoas morreram de causas relacionadas à AIDS, 61% delas na África Subsaariana. Mais de 210 mil adolescentes e mulheres jovens de 15 a 24 anos tiveram infecção por HIV em 2024 — uma média de 570 novas infecções por dia.
Os serviços de prevenção do HIV estão gravemente comprometidos. Os serviços comunitários, que são essenciais para alcançar as populações marginalizadas, estão sendo desfinanciados a um ritmo alarmante. No início de 2025, mais de 60% das organizações de resposta ao HIV lideradas por mulheres que vivem com HIV tinham perdido financiamento ou foram obrigadas a suspender os serviços.
O Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da AIDS (PEPFAR) alcançou 2,3 milhões de adolescentes e mulheres jovens com serviços abrangentes de prevenção do HIV em 2024 e permitiu que 2,5 milhões de pessoas usassem a PrEP para o HIV — muitos desses programas agora foram completamente interrompidos.
Enquanto isso, alguns fatores estão ampliando a crise e tornando os serviços de HIV inacessíveis como o aumento das leis punitivas que criminalizam as relações entre pessoas do mesmo sexo, a identidade de gênero e o uso de drogas. Países como Uganda, Mali e Trinidad e Tobago passaram recentemente por mudanças prejudiciais e discriminatórias em suas leis penais que colocam populações-chave como alvo, afastando-as ainda mais dos cuidados de saúde e as expondo ainda mais ao risco de contrair o HIV.
A África do Sul financia atualmente 77% de sua resposta à AIDS e sua revisão orçamentária para 2025 inclui um aumento anual de 5,9% nos gastos com saúde nos próximos três anos, incluindo um aumento anual de 3,3% para programas de HIV e tuberculose.
O governo pretende financiar o desenvolvimento de um sistema de informações ao paciente, um sistema centralizado de dispensação e distribuição de medicamentos e um sistema de vigilância de estoque de medicamentos nas instalações.
Em dezembro de 2024, sete países — Botsuana, Essuatíni, Lesoto, Namíbia, Ruanda, Zâmbia e Zimbábue — alcançaram as metas 95-95-95: 95% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu status, 95% delas estão em tratamento e 95% das pessoas em tratamento apresentam supressão viral.
Esses sucessos devem ser mantidos e ampliados. O Brasil está quase lá: em 2024, 96% das pessoas que vivem com HIV conheçam seu diagnóstico; 82% das pessoas que sabem que vivem com HIV estejam em tratamento antirretroviral; e 95% das pessoas em tratamento estejam com a carga viral suprimida.
O relatório também destaca o surgimento de novas ferramentas de prevenção sem precedentes e altamente eficazes, como a PrEP injetável de ação prolongada, incluindo o Lenacapavir, que demonstrou eficácia quase total em ensaios clínicos — embora a disponibilidade e o acesso continuem sendo desafios importantes.
“Ainda há tempo para transformar esta crise em uma oportunidade”, disse Winnie. Byanyima. “Os países estão intensificando o financiamento interno. As comunidades estão mostrando o que funciona. Agora precisamos de solidariedade global para corresponder à sua coragem e resiliência.”
“Ainda há tempo para transformar esta crise em uma oportunidade”, enfatiza Winnie Byanyima. “Os países estão intensificando o financiamento interno. As comunidades estão mostrando o que funciona. Agora precisamos de solidariedade global para corresponder à sua coragem e resiliência.”
O Relatório Global sobre AIDS 2025 conclui com um apelo urgente: a resposta global ao HIV não pode depender apenas de recursos nacionais. A comunidade internacional deve se unir para preencher a retirada de financiamento, apoiar os países a eliminar as lacunas remanescentes nos serviços de prevenção e tratamento do HIV, remover as barreiras legais e sociais e empoderar as comunidades para liderar o caminho a seguir.
O UNAIDS enfatiza que cada dólar investido na resposta ao HIV não apenas salva vidas, mas também fortalece os sistemas de saúde e promove objetivos de desenvolvimento mais amplos. Desde o início da epidemia, 26,9 milhões de mortes foram evitadas por meio do tratamento e 4,4 milhões de crianças foram protegidas da infecção pelo HIV por meio da prevenção da transmissão vertical.
O relatório apresentou informações sobre serviços liderados pela comunidade no país, como o projeto piloto Trans Amigas, que demonstrou que mulheres trans assistidas por outras mulheres trans tiveram 40% mais chances de permanecer em tratamento para o HIV ao final da intervenção de nove meses.
O documento também menciona um estudo que analisou o Bolsa Família como um programa que demonstrou impactar a redução de novas infecções por HIV – a incidência do HIV foi 41% menor e a mortalidade relacionada à AIDS 39% menor nas famílias que receberam o benefício.
“Em tempos de crise, o mundo deve escolher a transformação em vez do recuo”, disse Winnie. “De forma conjunta, ainda podemos acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 — se agirmos com urgência, unidade e compromisso inabalável”, finaliza.
O relatório está disponível para download, em inglês, na página “Relatórios e Publicações“.
O relatório do UNAIDS foi lançado dia 10 de julho, antes da Conferência Científica sobre AIDS IAS 2025, que acontecerá em Kigali, Ruanda, de 13 a 17 de julho de 2025.