
Winnie Byanyima
Diretora executiva do UNAIDS e sub-secretária-geral das Nações Unidas
O impacto do colapso repentino do financiamento internacional tem sido devastador, do ponto de vista de onde eu estou – na liderança do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS).
O Prêmio de Avanço Científico do Ano de 2024, concedido pela revista Science, abriu o ano de 2025 de forma empolgante: um novo medicamento injetável de longa duração chamado lenacapavir, capaz de oferecer proteção quase total contra o HIV com apenas uma injeção a cada seis meses.
Nos próximos anos, essa injeção poderá ser aplicada apenas uma vez por ano. Não é uma vacina, mas, da perspectiva de uma pessoa expostas a situações de risco, é o mais próximo que já chegamos de uma vacina contra o HIV.
Estávamos dialogando com governos, empresas – especialmente a Gilead – e comunidades, nos preparando para aproveitar essa oportunidade e avançar rapidamente para acabar com as novas infecções e colocar fim a essa pandemia. Estávamos em busca de uma solução global para um problema de escala global.
Mas então vieram os cortes generalizados e abruptos dos Estados Unidos – somados a outros cortes promovidos por países ricos da Europa.
Isso colocou a resposta ao HIV em uma crise. E agora, corremos o risco de perder a oportunidade histórica de desacelerar as novas infecções e nos aproximarmos do fim da AIDS.
Clínicas foram fechadas; serviços de prevenção paralisados; e pessoas estão perdendo acesso a medicamentos que são cruciais para suas vidas. Com isso, pessoas estão morrendo.
Nossos dados começam a mostrar isso. Antes dessa crise, globalmente havia 3.500 novas infecções por HIV por dia. Atualmente, esse número subiu para 5.800 novas infecções/dia.
Se essa situação continuar sem controle, nossos modelos preveem que, até 2029, haverá mais 6 milhões de novas infecções por HIV. E haverá 4 milhões de mortes relacionadas à AIDS além do previsto até 2029. Isso significa perder o controle da epidemia.
Precisamos, portanto, de uma nova abordagem. Não podemos retroceder. Precisamos nos adaptar ou redefinir para uma nova era no desenvolvimento. Isso não significa perder a esperança.
Como disse Helen Clark: “Você não pode perder a oportunidade que uma crise traz. Precisamos aproveitá-la.”
O consenso por trás do modelo antigo de financiamento – por meio do qual avançamos – está terminando, mas o fim da ajuda não significa, necessariamente, o fim da cooperação global.
O fim do financiamento, como a conhecemos, não pode ser o fim da solidariedade e da cooperação global.
Precisamos nos ajustar. Fazer um novo arranjo. Precisamos apresentar formas novas e inovadoras de trabalharmos em conjunto, para continuarmos resolvendo os problemas globais de forma colaborativa.
É por isso que precisamos de investimento público global.
Precisamos de uma abordagem baseada em interesses compartilhados, que una países para responder aos desafios que só podem ser superados em conjunto, colaborando, trabalhando lado a lado para resolver um problema global no qual todas as pessoas podem contribuir.
Isso significa contribuições compartilhadas, nas quais todos os países contribuem conforme suas possibilidades. E também decisões compartilhadas, nas quais todos os países estão à mesa, decidindo em sintonia como resolver os problemas globais. O investimento público global oferece essa abordagem.
Devemos lembrar às lideranças: os vírus não respeitam fronteiras. A crise climática não respeita fronteiras. Os desastres não respeitam fronteiras.
A humanidade sempre estará diante de problemas – e sempre criará oportunidades – que são de natureza global.
Precisamos cooperar para enfrentá-los. E precisamos cooperar com justiça.
O investimento público global reconhece a nossa interdependência.
Não é caridade. É interesse coletivo.
O investimento público global tornará todos os países mais seguros e lhes devolverá sua dignidade.
As contribuições compartilhadas de todos os países, de acordo com suas possibilidades, ajudarão todas as pessoas a perceberem que fazem parte da solução. Reunir recursos beneficiará todos os países.
A tomada de decisões compartilhada garantirá programas eficazes, que respondam às necessidades de todas as pessoas – e não programas moldados por quem tem dinheiro, supervisionados por quem tem dinheiro, para quem não tem dinheiro.
O investimento público global é uma ideia cuja hora chegou.
Para superar a crise em que estamos, o investimento público global é essencial – mas, permitam-me dizer, não é suficiente.
Também precisamos garantir que os países de baixa e média rendas tenham espaço fiscal para investir em saúde, educação, proteção social e outras prioridades essenciais para seus povos.
Isso significa que também precisamos agir com urgência nas questões de dívida e acesso equitativo a financiamento, tributação e regras de comércio.
Hoje, 34 dos 55 países africanos – 61% dos países do continente – gastam mais com o pagamento de suas dívidas do que com a saúde de seu povo – e mais do que com a educação de suas crianças.
O mesmo continente perde mais de US$ 88 bilhões – cerca de R$ 484 bilhões – por ano em fluxos financeiros ilícitos, principalmente devido a abusos das regras tributárias.
Precisamos de uma ação global para resolver o problema da dívida insustentável e do acesso desigual a financiamento.
Precisamos avançar com o framework da ONU sobre cooperação tributária internacional, para acabar com a evasão fiscal que nega aos países os recursos domésticos de que precisam para atender às necessidades de seus povos.
Justiça fiscal. Justiça da dívida. Justiça da propriedade intelectual. E investimento público global.
É por isso que a rede Global Public Investment apoia fortemente e trabalha em aliança com as campanhas por justiça fiscal e justiça da dívida. Essas são lutas interconectadas — e as pessoas que atuam nessas frentes são aliadas vitais.
Não precisamos nos render nem desesperar. Podemos construir uma esperança ativa.
Estamos em uma crise global. Podemos resolvê-la com solidariedade global. Podemos salvar vidas e manter todas as pessoas em segurança.
E agora é a hora do investimento público global.
Este artigo é uma adaptação da fala de Winnie no lançamento da campanha Global Public Investment, em 29 de maio de 2025. Acesse o original, em inglês, aqui.