Dia da Mulher Negra Latino-americana Caribenha: conheça a história de Daiana Galiza, educadora de pares em Salvador

“Nasci e cresci em Salvador, em um lar religioso. Desde muito cedo, eu já sentia que algo em mim não se encaixava nas expectativas das pessoas do meu convívio. Eu gostava de brincar de boneca, pular elástico, vestir rosa e eu sempre ouvia: ‘isso é coisa de menina’.”

Neste Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o UNAIDS apresenta Daiana Moreira Galiza, mulher baiana, artista e educadora de pares. Com dedicação e resiliência, ela conta como sua vida e trabalho são um chamado para que ninguém fique para trás.

“Cresci tentando esconder o que era natural em mim. Me policiava no jeito de andar, no tom de voz. Mas a gente não consegue se apagar por completo. Na adolescência, passei a entender que o ‘problema’ não estava em mim, e sim no que o mundo queria que eu fosse.”

Foi ao conhecer o universo LGBTQIA+ que tudo começou a fazer sentido para Daiana. Nesse momento, ela compreendeu, enfim, quem era uma mulher trans. Com esse entendimento, surgiu também uma nova força — a vontade de lutar. Mas não uma luta individual, e sim uma luta coletiva, por outras pessoas como ela.

Essa luta mostra como as desigualdades raciais e de gênero continuam afetando o acesso à saúde. Em 2013, de acordo com dados do Ministério da Saúde, a cada 100 pessoas diagnosticadas com HIV no Brasil, cerca de 45 eram brancas e 55 eram negras. Dez anos depois, em 2023, esse cenário piorou substancialmente para a população negra: do total de 100 novos casos, quase 35 eram entre pessoas brancas e mais de 65 entre pessoas negras.

Mas Daiana, ao lutar, se colocava como alvo de uma sociedade que é violenta com pessoas trans — e ela não foi poupada dessa violência. Em 2023, Daiana sofreu um ataque transfóbico, um dos momentos mais difíceis de sua vida.

Com 19% do corpo queimado, a violência veio de alguém que não aceitava sua existência. Foi uma experiência dolorosa, mas que fez com que tomasse a decisão que não podia mais se calar. Precisava ser forte — por si mesma e por todas as pessoas trans que enfrentam violência diariamente.

No Brasil, segundo dados da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC), em 2023, cerca de 48,6% dos municípios brasileiros não possuíam quaisquer programas ou ações de enfrentamento à violência direcionada à comunidade LGBTQIA+ e populações negras.

Transformando a luta individual em coletiva

A partir dessa situação, Daiana entrou de vez no ativismo. Junto com amigos, fundou a Associação Cores da Vida, no bairro de Mussurunga, em Salvador. A ideia veio da experiência que teve em Sergipe, com um coletivo chamado ‘Amor e as Cores da Vida’. Neste coletivo, ela percebeu o poder das ações de base — e sentiu que precisava trazer isso para perto da sua comunidade. Em 2025, o grupo completa quatro anos de atuação em saúde, direitos humanos e conscientização.

“Uma de nossas maiores conquistas foi começar as ações do Dezembro Vermelho no bairro. Nenhum posto de saúde fazia isso. A gente começou com recursos próprios, e hoje já realizamos a terceira edição. Trabalhamos com foco na população LGBTQIA+ e negra, que são os grupos mais impactados pela exclusão”, conta Daiana.

Daiana participou, em fevereiro, junto com o UNAIDS, do projeto “Rolê da Prevenção”, realizado em Salvador, que qualificou cerca de 80 profissionais de saúde e pessoas educadoras de pares. Daiana levou informações sobre HIV e AIDS, prevenção e tratamento, além de distribuição de autotestes, lubrificantes e preservativos internos e externos para foliãs e foliões nas festividades.

Luto por mim e por todas iguais a mim

Ser mulher, negra, trans e baiana não é fácil. Mesmo em 2025, a gente continua sendo discriminada, marginalizada. O acesso à informação, ao acolhimento, é sempre o último a chegar — quando chega. É por isso que acredito tanto na força da informação. Quando a gente conhece, a gente se protege. Quando entende, a gente se fortalece.