
A Associação da Paradas do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP) promoveu, nesta sexta-feira (05), em São Paulo, da mesa “Acesso a medicamentos injetáveis de longa duração”, para debater como novas tecnologias de prevenção do HIV, como o lenacapavir, podem estar acessíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Representantes da Associação Brasileira Interdisciplinar da AIDS (ABIA) e do UNAIDS participaram do debate.
Durante a mesa, a Parada do Orgulho de SP e mais 50 Paradas do Orgulho assinaram o Manifesto que demanda redução do custo do Lenacapavir e a urgência da incorporação pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Um dos temas debatidos na mesa foi sobre como a prevenção combinada — e suas estratégias como testagem, preservativos, profilaxia pré-exposição (PrEP) e profilaxia pós-exposição (PEP) — podem estar presentes nas paradas LGBTQIA+ brasileiras, uma vez que esses eventos atuam, também, como espaços de saúde pública e educação comunitária.
A participação da sociedade civil como parte central da resposta ao HIV também foi debatida — uma vez que as comunidades lideram as respostas em território — assim como a importância de parcerias locais com secretarias de saúde no intuito do fomentar a participação social em ambientes decisórios sobre o HIV.
Durante as discussões da mesa, a APOLGBT-SP, junto com outras 50 organizações de paradas de todo o Brasil, divulgou um manifesto público em defesa do acesso universal ao lenacapavir — medicamento injetável de longa duração considerado uma das principais inovações recentes na prevenção e no tratamento do HIV.
As entidades da sociedade civil destacam que o custo alto previsto para o antirretroviral pode inviabilizar sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), o que tende a aprofundar as desigualdades e comprometer a resposta brasileira à epidemia.
O documento reforça que o acesso à saúde, à ciência e às tecnologias de prevenção é um direito humano fundamental e alerta para o impacto desproporcional da epidemia sobre populações historicamente marginalizadas, como homens que fazem sexo com homens (HSH), mulheres trans, travestis, profissionais do sexo e outras populações-chave historicamente vulnerabilizadas.
“Muitas vezes há uma barreira comercial, monopólio ou patente que bloqueia o acesso igualitário. A construção da AIDS, no início da epidemia, foi direcionada, para a população LGBTQIA+ e outras populações-chave. E é importante salientar que foi o movimento LGBTQIA+ que demandou uma resposta ao HIV no início da epidemia. Quando uma tecnologia ou um medicamente está sob um monopólio, são as empresas que decidem quem pode ter acesso“, diz Susana Van Der Ploeg, advogada da ABIA.
Os impactos do estigma e discriminação direcionados às pessoas que vivem com HIV e AIDS (PVHA) foram apreciados durante as discussões. Dados do Índice de Estigma, lançado pelo Consórcio Nacional de Pessoas que vivem com HIV, mostra que entre homens gays, homens que fazem sexo com outros homens (HSH) e bissexuais, 81,6% já relataram ao menos uma forma de estigma ligada à orientação sexual.
Já entre pessoas trans e não binárias, o estigma é um processo ainda mais violento. A discriminação baseada na identidade de gênero foi relatada por 85,7% de mulheres trans e 93,8% entre não-binárias.
“Dados da pesquisa mostram que o estigma e a discriminação são tão fortes para algumas populações que vivem com o HIV, que algumas pessoas deixam de procurar o sistema de saúde para iniciar ou continuar ao tratamento devido ao estigma sofrido. O medo [do estigma] acaba por ser maior que a sorofobia, e nenhum desses preconceitos deveria ter mais espaço na nossa sociedade“, afirma Gustavo Passos, oficial de Igualdade e Direitos do UNAIDS Brasil.
Para além da festa, as paradas brasileiras são um importante espaço de acolhimento da comunidade LGBTQIA+, com ações de fomento econômico, visibilidade artística da população LGBTQIA+. A parada de São Paulo, considerada a maior parada LGBTQIA+ do mundo, envolve direta ou indiretamente mais de 150 artistas e 500 pessoas envolvidas na produção e logística do evento.
Com ações para além da data oficial, a Parada de SP fomenta uma programação extensa com iniciativas como a Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo, a Corrida do Orgulho, o Prêmio Parada SP de Cidadania LGBTQIA+ e diversas ações que ampliam o alcance e fortalecem a mobilização da comunidade.
O acesso universal à medicamentos injetáveis de longa duração para prevenção e tratamento ao HIV foi o ponto central das conversas. O acesso a essas novas tecnologias — assim como a participação dos poderes da república foi defendido como um direito humano que se sobrepõe ao lucro, sendo o SUS um importante meio de democratizar o acesso à população brasileira.
Em setembro de 2025 foram anunciados dois acordos para promover o progresso na prevenção de novas infecções pelo HIV. Mesmo com os novos acordos, Brasil continuou fora da lista de 120 países que pode se beneficiar da disponibilização da versão genérica de sua injeção.
Porém, o atual de corte de financiamento global, assim como o avanço de políticas discriminatórias, revela um cenário desafiador na resposta global ao HIV. No Brasil, o preço e acesso ao Lenacapavir já foi discutido em Audiência Pública, a partir da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados.