Discurso da diretora executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, no lançamento do relatório do Dia Mundial contra a AIDS 2019

Chefe de gabinete, governador interino James Nyoro, colegas do Sistema das Nações Unidas. Jambo!

Voluntários de saúde comunitária, vocês são meus heróis e heroínas. Estou muito feliz por estar aqui com vocês hoje no Condado de Kiambu, no Quênia.

E agradeço a calorosa recepção aqui, bem no coração de sua comunidade, no lançamento do relatório do UNAIDS Poder para as pessoas.

Obrigado a vocês, jovens. Especialmente o jovem com deficiência que acabou de falar conosco, e nos lembrou que nem todas as pessoas que vivem com HIV são iguais— todas são diferentes e precisamos ser inclusivos. Vamos nos lembrar disso. Vamos tomar as devidas providências.

Quero expressar minhas sinceras condolências e solidariedade ao povo de West Pokot, pela trágica perda de vidas e propriedades após as chuvas torrenciais e deslizamentos de terra. Sinto esta perda como vocês.

LANÇAMENTO DO RELATÓRIO ‘PODER PARA AS PESSOAS’

Estou aqui porque a África ainda é o continente mais afetado pela epidemia de HIV.

Mais de 25 milhões de pessoas vivem com HIV na África Subsaariana—mais de dois terços do total global dos 37,9 milhões de pessoas vivendo com HIV.

Também estou aqui porque muitos países da África estão liderando o caminho para acabar com a epidemia de AIDS. Somos heróis e heroínas, lutando contra a epidemia.

No Quênia, as mortes relacionadas à AIDS caíram mais de 50% desde 2010 e as novas infecções por HIV caíram 30%. Esta é uma grande conquista. Um enorme progresso em pouco tempo.

Hoje, posso anunciar que 24,5 milhões de pessoas vivendo com HIV em todo o mundo agora têm acesso a tratamentos capazes de salvar vidas. Boas notícias e grande progresso.

UNINDO-SE À MARATONA PARA ACABAR COM A AIDS

Este é um dia especial para mim.

Estou lançando meu primeiro relatório do UNAIDS.

Com este novo relatório, presto homenagem às famílias e comunidades devastadas pela AIDS, aos grupos de mulheres e às comunidades que mobilizaram e transformaram a resposta à AIDS. Eu parabenizo vocês. Devemos muito a vocês.

No meu país, as mulheres se reuniam nas aldeias, compravam panelas e cobertores, cuidavam umas das outras, enterravam os mortos, não deixavam ninguém sofrer sozinho. Foram as mulheres em nossas comunidades que fizeram isso.

Hoje, estou comprometendo o UNAIDS a dar grandes passos em uma nova direção.

COMBATE À DESIGUALDADE E À POBREZA

O primeiro passo é abordar a desigualdade e as injustiças que alimentam a epidemia de HIV.

A AIDS afeta as pessoas que vivem na pobreza. Este é um problema para todas as pessoas, mas um grande problema para as que são pobres.

Temos que lidar com a desigualdade. Não pode estar certo que algumas pessoas recebam tratamento e tenham uma vida longa, enquanto outras morrem por não poder ter acesso aos cuidados de saúde.

Devemos combater a desigualdade, tirar todas as pessoas da pobreza.

Precisamos fornecer mais serviços—educação, saúde, proteção social. É assim que acabaremos com a AIDS.

IGUALDADE DE GÊNERO E DIREITOS DA MULHER SÃO CHAVE

Devemos promover os direitos das mulheres se quisermos acabar com a AIDS, então, nosso segundo grande passo na corrida para acabar com a AIDS deve ser combater a desigualdade de gênero.

Apesar do progresso registrado na prevenção e no tratamento, o HIV continua sendo a principal causa de morte para mulheres de 15 a 49 anos em todo o mundo.

A cada semana, 6.000 mulheres jovens entre 15 e 24 anos são infectadas pelo HIV.

Na África Subsaariana, mulheres e meninas jovens enfrentam taxas de HIV muito mais altas que homens e meninos.

Mulheres jovens na África Subsaariana com idades entre 15 e 24 anos têm duas vezes mais chances de viver com HIV do que homens da mesma idade.

São números que envergonham a todos.

Esta é uma injustiça de gênero com repercussões trágicas. Por que as mulheres jovens são mais vulneráveis?

Se quisermos cumprir nossas promessas, devemos acabar com os desequilíbrios de poder de gênero que estão gerando risco e vulnerabilidade ao HIV.

Precisamos defender a igualdade de gênero e capacitar mulheres jovens e meninas para transformar nossas sociedades.

Em todo o mundo, uma em cada três mulheres viverá uma experiência de abuso físico ou sexual em sua vida.

Em muitas de nossas comunidades, a primeira experiência de uma mulher com sexo é violenta, é forçada. Essa é a realidade.

Ontem, lançamos os 16 dias de ativismo contra a violência de gênero. Todos os dias devemos nos comprometer a alcançar a igualdade entre mulheres e meninas, para que sua vulnerabilidade à violência possa acabar.

Aqui no Quênia, estou preocupada com a taxa de feminicídio.

Toda semana, lemos um relato da mídia de uma mulher, geralmente uma jovem, morta por seu parceiro.

Precisamos defender essas mulheres, pedir justiça e acabar com a impunidade. O mundo deve ser um espaço seguro para todos nós.

O UNAIDS prestará mais atenção no enfretamento de leis, tradições, culturas e práticas que possibilitem e perpetuem a violência de gênero. O corpo de uma mulher é apenas dela.

É nosso dever urgente garantir que todas as mulheres e meninas, de todas as idades, tenham acesso irrestrito a serviços de saúde sexual e reprodutiva.

Não podemos aceitar que milhões de mulheres ainda não tenham acesso a contraceptivos, porque sabemos que o direito à contracepção é essencial para o empoderamento em todos os aspectos da vida.

Estamos cometendo uma injustiça com milhões de jovens que ainda não conseguem acessar os serviços básicos de saúde de que necessitam: preservativos gratuitos, teste de HIV sem consentimento parental e profilaxia pré-exposição.

Manter as meninas na escola reduz o risco de HIV. Precisamos garantir que todas as pessoas jovens possam permanecer na escola e que toda escola ofereça educação sexual abrangente e de qualidade—para que conheçam seu corpo, sua saúde.

O UNAIDS, juntamente com os nossos copatrocinadores—o Fundo das Nações Unidas para a População, a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura e o Fundo das Nações Unidas para a Infância—intensificará a atuação para mulheres e meninas, especialmente na África.

DIREITOS HUMANOS

O terceiro passo que peço para tomarmos hoje é sobre direitos humanos.

Os direitos humanos e os direitos cidadãos de mulheres e meninas, gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo, pessoas que usam drogas e pessoas privadas de liberdade estão sendo negados.

Sem julgamento, devemos garantir que estas pessoas possam ter acesso aos serviços de HIV, para que esta infecção e suas consequências possam acabar. Devemos tratar estas pessoas como cidadãos e cidadãs iguais, para que possam usufruir de seu direito à saúde e obter serviços para proteger a si mesmos e a parceiros e parceiras da infecção pelo HIV.

Um terço das populações-chave não conhece seu estado sorológico para HIV.

Em muitos países, ainda temos leis que criminalizam populações-chave ou discriminam pessoas que vivem com HIV, então elas se escondem e, quando se escondem, não têm direito à saúde.

As repressões e restrições às campanhas focadas em gays, bissexuais, transgêneros e intersex são inaceitáveis.

Jovens estão sendo julgados e punidos por quem são e por quem amam.

Não acabaremos com a AIDS, a menos que sejamos capazes de garantir os direitos humanos de todas as pessoas, especialmente das populações-chave.

FINANCIAMENTO E RECURSOS

Apesar do progresso nos últimos anos, ainda não existem recursos suficientes para acabar com a epidemia de AIDS. Os países pobres estão lutando para pagar por tudo o que precisam—saúde, educação, estradas, água, saneamento.

A saúde deve ser uma prioridade. Sem pessoas saudáveis, não teremos progresso.

Dois terços dos países da África ainda cobram taxas pelos serviços de saúde e milhões de pessoas estão a apenas uma doença de cair na pobreza extrema.

Apesar do compromisso mundial de implementar a saúde universal, a porcentagem de pessoas que pagam do próprio bolso pelos custos catastróficos de saúde só aumentou nos últimos cinco anos. A saúde não pode ser um privilégio para quem é rico ou rica—deve ser um direito para todas as pessoas.

A dívida pública subiu acima de 50% do produto interno bruto em metade dos países da África Subsaariana. Em um espaço fiscal restrito, os governos devem encontrar caminhos para um financiamento sustentável de suas respostas ao HIV a longo prazo. Queremos trabalhar com os governos para ver como criar espaço fiscal e gerenciar suas prioridades dentro de orçamentos reduzidos pelo pagamento de dívidas.

Durante a recente reposição do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária, países e fundações fizeram um adiantamento histórico para avançar rumo ao fim da epidemia de AIDS. Mas também é necessário mais trabalho para garantir que cada dólar, euro e outras moedas nacionais seja usado de maneira eficaz.

Em muitos países de renda média, os governos ainda estão pagando milhares de dólares a mais pelos mesmos medicamentos de qualidade disponíveis para países de baixa renda por apenas alguns centavos por dia. Isso é inaceitável. Vamos nos esforçar para ver os preços caírem.

O acesso universal a cuidados de saúde de qualidade não é uma mercadoria—é um direito humano.

CONCLUSÃO

Não subestimo os desafios futuros, mas sinto muita empolgação com o que pode ser alcançado pelas pessoas. Estamos nos apoiando nas pessoas que lutaram—como podemos falhar nesta missão de concluir o trabalho?

O que eu pedi hoje exige algumas mudanças urgentes.

Mudanças na forma como pensamos o que é possível.

Cuidados de saúde para cada pessoa—isso não é impossível.

Mudanças na rapidez com que agimos.

Mudanças na maneira como trabalhamos enquanto UNAIDS—precisamos nos olhar no espelho.

Mas, sem dúvida, podemos acabar com a epidemia de AIDS.

Eu perdi pessoas queridas.

Podemos entrar em um futuro de saúde para todos.

Chefe de Gabinete e todos e todas as pessoas ativistas aqui hoje, desejo as vocês tudo de melhor em seus esforços. O UNAIDS está logo atrás de vocês.