
O mundo pode estar à beira de uma revolução na resposta global à AIDS.
Esta é a oportunidade de uma vida.
Em dezembro de 2024, a revista Science nomeou um novo medicamento de ação prolongada contra o HIV — o lenacapavir — como a Descoberta do Ano. Este novo medicamento pode prevenir novas infecções por HIV com apenas duas injeções anuais e também manter vivas e saudáveis as pessoas que já vivem com o vírus.
Este é apenas um dos vários medicamentos de prevenção de longa duração agora disponíveis. Já existem uma injeção bimestral e um anel vaginal mensal. Um anel vaginal trimestral e uma pílula de uso mensal também estão em ensaios clínicos promissores. E, justamente quando anunciaram o prêmio de Descoberta do Ano, iniciaram testes para uma versão injetável anual do lenacapavir.
Esta é a inovação científica em seu melhor estado – e pode inaugurar uma nova era no tratamento e na prevenção do HIV.
Para que essa ciência notável realmente acabe com a pandemia de AIDS, precisamos de um esforço global público-privado entre empresas, governos e comunidades que vá além de qualquer coisa já vista até agora.
Se aproveitarmos essa oportunidade, poderemos fazer algo que o mundo nunca fez antes: acabar com uma pandemia sem cura e sem vacina, enquanto as pessoas mais afetadas ainda estão vivas para contar a história.
Poderemos registrar a AIDS nos livros de história – e 2025 pode ser o ano decisivo para isso.
Há uma década, o mundo adotou a meta ousada de acabar com a pandemia de AIDS até 2030. Mas não estamos no caminho certo para alcançar esse objetivo. Em 2023, o número de novas infecções por HIV foi de cerca de 1,3 milhão – muito acima da meta de 370 mil para 2025 – e, em média, uma pessoa morria por doenças relacionadas à AIDS a cada minuto em algum lugar do mundo.
Mas agora, esses novos medicamentos contra o HIV podem substituir os comprimidos diários por métodos que as pessoas precisam utilizar apenas algumas vezes por ano. Essas inovações não são meros sonhos distantes – algumas já estão sendo usadas em países de alta renda. Mas, para aqueles que mais precisam – pessoas em alto risco nos continentes africano, asiático e latinoamericano – esses tratamentos não estão disponíveis ou acessíveis.
Essa nova era de medicamentos contra o HIV pode apresentar um estilo de prevenção semelhante a um anticoncepcional injetável ou a uma vacina sazonal. Qualquer pessoa que tenha dificuldade em tomar comprimidos todos os dias pode entender a diferença. E, quando o uso de medicamentos contra o HIV está associado a um profundo estigma e discriminação, o potencial transformador dessas ferramentas fica ainda mais evidente.
Com lideranças empresariais, governamentais e da sociedade civil reunidas no Encontro Anual de 2025 do Fórum Econômico Mundial, esta pode ser a oportunidade para renovar a resposta global à AIDS. Veja como:
Os medicamentos devem ser bens públicos globais, e não tratados como produtos de luxo. As empresas farmacêuticas ainda podem obter lucros enquanto garantem que os medicamentos contra o HIV sejam acessíveis para quem precisa. Nos EUA, os medicamentos contra o HIV podem custar até US$ 40 mil por pessoa anualmente. Não há como países de baixa e média renda pagarem por isso.
As empresas Gilead Sciences e ViiV, fabricantes dos injetáveis de longa duração lenacapavir e cabotegravir, anunciaram que reduzirão os preços para alguns países – embora o preço do lenacapavir pela Gilead ainda não tenha sido confirmado.
Precisamos de múltiplos produtores desses medicamentos, e não apenas um. Isso significa envolver a inovação das empresas farmacêuticas de genéricos em países como África do Sul, Índia, Brasil, Egito e Tailândia.
Pesquisas já calcularam que, se a demanda for alta o suficiente, a empresa pode produzir e vender o lenacapavir por cerca de US$ 40 por pessoa por ano, ainda garantindo lucro.
A Gilead e a ViiV licenciaram os medicamentos contra o HIV para empresas que produzem genéricos acessíveis em muitos países de baixa renda – mas não em todos. Alguns países, especialmente na América Latina, foram deixados de fora. Brasil, Argentina, México e Peru, que participaram dos ensaios clínicos do lenacapavir, foram excluídos.
Precisamos expandir a colaboração público-privada nesta área. As Nações Unidas estão trabalhando com organizações parceiras como a Unitaid, o Plano de Emergência do Presidente dos EUA para Alívio da AIDS (PEPFAR), a Coalizão de Advocacy para a Vacina contra a AIDS e o Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária para moldar um mercado global robusto.
Para que isso seja transformador, mais produtores de medicamentos, bem como fabricantes de equipamentos médicos e especialistas em cadeias de suprimentos, devem se envolver. O setor privado tem um papel fundamental a desempenhar.
Ao intensificar a inovação, fabricantes podem criar opções de tratamento que revolucionem a vida das pessoas que vivem com HIV no Sul Global.
Adolescentes do continente africano que cresceram com HIV dizem que sonham em se libertar da necessidade de tomar um comprimido todos os dias. Pessoas criminalizadas, como homens gays em algumas partes do mundo, precisam de opções que possam ser administradas em uma clínica, sem precisar levar os medicamentos para casa.
Atualmente, as opções de tratamento de longa duração disponíveis funcionam bem para algumas pessoas no Norte Global, o que reduz a urgência de testar novas combinações. Os esquemas terapêuticos atuais não são ideais para contextos de poucos recursos, criando a necessidade de ensaios clínicos que combinem medicamentos de diferentes empresas.
O Fundo Global será a principal fonte de fornecimento desses novos medicamentos na África, mas atualmente não tem dinheiro suficiente para apoiar um lançamento global.
Em 2025, o fundo está programado para uma nova captação de recursos de três anos. Os governos farão promessas financeiras em um ambiente político e econômico extremamente desafiador. Precisamos que lideranças do setor privado emprestem suas vozes e recursos para garantir o crescimento do fundo.
A história da pandemia de AIDS mostra que há dois caminhos possíveis. Entre 1997 e 2006, 12 milhões de pessoas morreram na África esperando que a primeira geração de tratamentos contra o HIV se tornasse acessível. Após anos de pressão pública, empresas, governos e a sociedade civil se uniram para reduzir os preços e incentivar que as instituições que levassem os medicamentos a milhões de pessoas por meio da produção de genéricos, do compartilhamento de conhecimento e do compromisso financeiro.
As lideranças reunidas no Encontro Anual do Fórum Econômico Mundial devem seguir esse segundo caminho se quisermos acabar com a pandemia de AIDS definitivamente.
Cientistas estão fornecendo a oportunidade de que medicamentos de longa ação alcancem feitos notáveis na resposta ao HIV.
Se empresas, governos e a sociedade civil seguirem o exemplo desse avanço, este pode ser o começo do fim da AIDS.
Winnie Byanyima é diretora executiva do UNAIDS e Subsecretária-Geral da ONU
Para mais informações, baixe o novo relatório do UNAIDS: Uma oportunidade para acabar com a AIDS.
Uma versão deste artigo de opinião foi publicada originalmente pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) em 21 de janeiro de 2025 e posteriormente no linkedin.