
O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) realizou, em 14 de agosto, o webinário “Brasil e o Poder de Transformar: experiências nacionais no Relatório Global sobre AIDS 2025”. Durante o evento, especialistas discutiram sobre dados relacionados ao Brasil presentes no Relatório Global sobre AIDS 2025 e destacar as experiências brasileiras na resposta à epidemia. O encontro reuniu representantes do governo, da sociedade civil e da academia, fortalecendo o compromisso do Brasil em colocar os direitos humanos no centro da resposta ao HIV.
Na abertura, Andrea Boccardi Vidarte, diretora e representante do UNAIDS no Brasil chamou atenção para os desafios ainda presentes na resposta ao HIV: o estigma, a discriminação e as desigualdades sociais que impactam diretamente o acesso à saúde.
“Felizmente, no Brasil, o SUS garante, por lei, que todas as pessoas tenham acesso à prevenção, diagnóstico, tratamento e serviços especializados para HIV. Ainda assim, os desafios são grandes: 38% das pessoas vivendo com HIV já ouviram comentários discriminatórios, quase 50% das pessoas trans evitam os serviços de saúde por causa de sua identidade de gênero, e 65% dos homens gays e bissexuais relatam sofrer discriminação devido à sua orientação sexual”, diz Andrea.
A diretora regional do UNAIDS para a América Latina e Caribe, Luisa Cabal, lembrou que o mundo avançou com redução de 14% nas novas infecções e 56% nas mortes relacionadas à AIDS desde 2010, segundo dados do UNAIDS. Porém, alertou que os cortes de financiamento global ameaçam reverter duas décadas de progressos, especialmente em áreas de prevenção voltadas a populações-chave.
Para Luisa, o Brasil segue como referência ao integrar os serviços de HIV no SUS e ao ampliar o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP), mas é necessário avançar na redução de desigualdades estruturais.
Durante sua apresentação, Bruno Kauss, coordenador de cidades e sociedade civil do UNAIDS Brasil, reforçou que o relatório é uma ferramenta essencial para governos e organizações. Ele enfatizou a importância dos programas liderados por comunidades, fundamentais para ampliar o acesso à prevenção, tratamento e cuidado, especialmente diante da atual crise de financiamento global.
Representando o Ministério da Saúde, Arthur Kalichman, coordenador-geral de HIV/AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI), ressaltou o papel do SUS como garantia de acesso universal.
Ele lembrou que o país já figura entre os que mais expandiram a oferta de PrEP no mundo — No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, há cerca de 199 mil pessoas usuárias de PrEP, sendo 132.518 em dispensação contínua —, mas alertou para as desigualdades regionais e sociais que ainda limitam o alcance das tecnologias de prevenção e tratamento.
Segundo Kalichman, o Brasil precisa ampliar o acesso de populações-chave — como pessoas trans, jovens e pessoas negras — e garantir a sustentabilidade das políticas, especialmente em um cenário de desafios orçamentários.
O webinário apresentou experiências brasileiras mencionadas no Relatório Global: um deles é o projeto piloto TransAmigas , que utiliza navegação de pares para apoiar mulheres trans e travestis vivendo com HIV, fortalecendo retenção no cuidado e adesão ao tratamento.
O piloto Trans Amigas, realizado com 113 mulheres trans vivendo com HIV em São Paulo, mostrou resultados promissores: 94% recomendariam a navegação por pares e 85% gostariam de continuar, mas apenas 47% aderiram de forma consistente ao programa. Mesmo sem significância estatística, houve tendência de até 40% maior retenção em cuidado e redução do abandono entre as participantes da intervenção. O estudo reforça que a navegação por pares é altamente aceita e pode melhorar o engajamento no cuidado, embora barreiras sociais como pobreza (30%), moradia instável (33%) e uso problemático de álcool (52%) ainda limitem a adesão plena.
“O projeto TransAmigas mostra como a navegação de pares pode transformar o cuidado em saúde. Ao apoiar mulheres trans e travestis vivendo com HIV, fortalecemos a retenção no tratamento, aumentamos a adesão e promovemos dignidade e cidadania”, destaca Maria Veras, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Outra experiência brasileira presente no Relatório é estudo sobre o impacto do Bolsa Família na redução das novas infecções por HIV, que evidenciou como políticas sociais podem contribuir para a saúde pública.
O estudo mostra que o Programa Bolsa Família teve impacto expressivo na redução da AIDS no Brasil:
“A análise dos dados do Bolsa Família mostrou que a política social contribuiu para reduzir em 47% as novas infecções por HIV entre pessoas em situação de vulnerabilidade. Esse resultado reforça que saúde e proteção social caminham juntas no enfrentamento da epidemia.”, afirmou Andréa Ferreira da Silva, pesquisadora da Fiocruz Bahia.
O estudo sobre o Bolsa Família foi publicado no newsletter de agosto do UNAIDS.
O Relatório Global sobre AIDS 2025 e o sumário executivo em português estão disponíveis na seção de relatórios e publicações no site do UNAIDS Brasil.
Assista ao webinário “Brasil e o Poder de Transformar: experiências nacionais no Relatório Global sobre AIDS 2025”: