Diretor do UNAIDS discursa durante Lançamento do Roteiro de Prevenção ao HIV até 2020

Durante a reunião da Coalizão Global sobre Prevenção do HIV, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), lançaram um novo roteiro para reduzir o número de novas infecções por HIV: O Roteiro de Prevenção do HIV até 2020.

Durante o evento, Michel Sidibé, diretor do UNAIDS, reforçou que a publicação chega em momento oportuno, pois estamos em um momento decisivo da epidemia de HIV. Leia o discurso na íntegra:

 

MOMENTO DECISIVO PARA A PREVENÇÃO DO HIV

Honoráveis ministros, senhoras e senhores, amigos e colegas.

Estou orgulhoso em participar deste primeiro encontro da Coalizão Global sobre Prevenção do HIV e no lançamento desse importante roteiro de prevenção do HIV até 2020.

Este roteiro chega no momento certo em termos de resposta ao HIV. É oportuno porque estamos em um momento decisivo da epidemia de HIV. É imperativo reduzir as novas infecções por HIV e acelerar o ritmo da nossa ação, de modo a alcançar uma clara diferença na resposta global à AIDS.

Isso não será possível sem engajar diferentes círculos. Isso irá gerar energia e impulso em nosso movimento para que possamos continuar a mover resultados na direção certa. Isto significa não apenas se concentrar no tratamento, mas também pensar em tratamento e prevenção como um esforço combinado para acelerar nossos ganhos.

Quero começar agradecendo por estarem aqui hoje. Eu também quero felicitar minha irmã, Natalia Kanem, a nova Diretora Executiva do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA), e agradecê-la por ser co-responsável por esta reunião comigo. Ela sempre se comprometeu com a questão da prevenção. Eu estou certo de que Babatunde Osotimehin também estaria aqui, para colocar toda a sua energia nesse esforço. Seu espírito está conosco. Natalia Kanem, estou muito orgulhoso de que tenha sido nomeada para continuar a jornada que Babatunde Osotimehin começou.

Também quero agradecer aos co-presidentes desta coalizão, Sheila Tlou e Álvaro Bermejo. Sem sua energia, seu trabalho árduo e seu compromisso, essa iniciativa seria apenas um sonho. Não nos reuniríamos aqui hoje para começar a próxima etapa de nossa jornada para o fim da AIDS como ameaça para a saúde pública até 2030.

Há muitos campeões e líderes nesta sala. Em particular, quero agradecer aos ministros que viajaram de longe para estar aqui, bem como líderes do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária; o Fundo das Nações Unidas para a Infância; o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; a Organização Mundial de Saúde e outros co-patrocinadores do UNAIDS. Também vejo representantes de governos de Norte a Sul e da sociedade civil. O número de personalidades destacadas aqui demonstra o quão inovador esperamos que seja este roteiro.

E essa é a beleza da resposta à AIDS. Não podemos fazê-lo sozinhos. Precisamos que todas as partes da sociedade se juntem para conduzir esse novo movimento se quisermos acabar com a AIDS.

Estamos aqui porque a prevenção está atrasada. Não preciso gastar muito tempo neste fato, porque quanto a isso não cabe discussão. As novas infecções por HIV em adultos estão em declínio, mas muito devagar. E isso mesmo com a nossa capacidade de avançar muito rapidamente para acelerar o acesso ao tratamento.

Se continuarmos a ter 1000 novas infecções todos os dias entre mulheres jovens e adolescentes, perderemos o controle desta epidemia, e então será impossível detê-la.

Sabemos que no sul do continente africano, até 70% das trabalhadoras do sexo vivem com o HIV. Com esses números, é impossível imaginar o fim desta epidemia. Novas infecções por HIV estão aumentando globalmente entre pessoas que estão sendo deixadas para trás – não apenas trabalhadoras do sexo, mas homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, migrantes e pessoas que usam drogas injetáveis. Essas pessoas, muitas vezes, se escondem da sociedade, estão subterrâneas onde não podem ser facilmente alcançadas pelos esforços de prevenção.

Estou chamando para um esforço combinado com este roteiro e com marcadores claros até 2020. Para fazer isso, e mudar o curso desta epidemia, agora mais do que nunca precisamos de liderança ousada. Não alcançaremos nosso objetivo de reduzir novas infecções por HIV rapidamente, a menos que obtenhamos resultados mensuráveis ​​rapidamente.

Isso significa abordar questões sensíveis, como sexo e drogas. Isso significa garantir que os governos implementem políticas apropriadas que capacitem os jovens e as populações vulneráveis. Significa criar um ambiente propício no qual doadores financiem ações e programas de prevenção.

Será muito difícil. É por isso que precisamos de um forte movimento da sociedade civil – que tem feito parte do nosso DNA desde o início – para nos ajudar a criar impulso e também ser a voz dos sem voz. Isso transformará nossa resposta de prevenção.

A sociedade civil engloba a responsabilidade de todos nós – governos, doadores, organizações das Nações Unidas e outros parceiros. Trata-se de uma função crítica de vigilância. Sem esta função, a prevenção será muito difícil. A prevenção não é apenas colocar as pessoas no tratamento. Envolve muitas questões mais complicadas e sensíveis que mantêm as pessoas escondidas, fora do alcance de nossos programas.

Estamos falando sobre a resposta da AIDS como sendo um ponto de entrada para promover a equidade, a educação, a dignidade e a justiça, e reduzir as desigualdades que assolam os grupos que ficam para trás. As desigualdades ocorrem no Norte ou no Sul, em todos os países ou regiões. Há problemas em todos os lugares.

Sabemos que essas questões não são fáceis. Será impossível transformar a prevenção do HIV entre meninas adolescentes se não quisermos falar sobre educação sexual ou saúde reprodutiva e direitos. Sabemos que as meninas adolescentes devem frequentar a escola secundária, e é aí que elas podem receber educação sexual abrangente e acessar os itens de que precisam, como absorvente e preservativos. Esta é a chave para uma abordagem de prevenção.

Também precisamos mudar completamente nossa abordagem para proteger mulheres e meninas de violências baseadas no gênero. É por isso que eu tenho dito que as questões de prevenção não são orientadas como mercado. As questões de prevenção são orientados pela comunidade. Trata-se de transformar a forma como pensamos sobre a posição das mulheres em nossa sociedade. É sobre como nos certificamos de que nossas leis não estão forçando as pessoas a viverem escondidas. Devemos enfrentar atrevidamente as barreiras estruturais e as causas subjacentes às vulnerabilidades.

Isso é o que dificulta a prevenção. Não se trata apenas de distribuição de mercadorias. A menos que abordemos as causas subjacentes de novas infecções, nenhum avanço enorme virá. Se fosse fácil, já teríamos feito isso antes.

Necessitamos que cada parte da sociedade nos acompanhe nesta jornada. Temos um roteiro para mostrar o caminho, e conhecemos as barreiras no caminho. As leis punitivas que fazem com que as pessoas se afastem dos serviços devem ser removidas. A discriminação que limita a capacidade das pessoas vulneráveis ​​de acessar informações e medicamentos que salvam vidas, também deve ser removida. Os serviços pertencem a todos, quem quer que seja, onde quer que viva, quem quer que ame.

Temos uma série de exemplos em quatro regiões onde as novas infecções por HIV cresceram 60% nos últimos seis anos. Na Europa Oriental e Ásia Central, eles estão crescendo 10% ao ano. Esse aumento é praticamente culpa do estigma, da discriminação e da criminalização. As pessoas se escondem quando são consideradas criminosas por causa da forma como vivem e de quem amam. Se não atravessarmos essa barreira, nossos programas de prevenção nunca terão sucesso.

Essa coalizão é uma boa iniciativa, mas devemos ser corajosos. Precisamos ser ousados, estabelecendo metas de prevenção mensuráveis ​​para todos os países – incluindo índices de estigma e discriminação – para demonstrar que estamos progredindo. Por exemplo, no Zimbabwe, eles mantêm o objetivo de ter 90% de seus jovens em risco, e as populações-chave, com acesso a serviços de prevenção combinada.

Vejam vocês, é importante ter metas com configurações específicas para cada país. Nós já temos metas de prevenção globais – programas voluntários de circuncisão médica, profilaxia pré-exposição, preservativos -, mas elas devem ser convertidas ao nível de cada país. Temos compromissos para reduzir o estigma e a violência. Precisamos maximizar o uso das ferramentas que já possuímos, como o Índice de Estigma sobre Pessoas Vivendo com HIV.

Nós conhecemos esta regra básica há muito tempo: somente o que é medido é feito. Sem uma maneira de quantificar o problema, não podemos criar um mecanismo para ajudar os países a informar os resultados adequadamente.

É hora de passar do compromisso para a ação. É hora de usar o impulso desta coalizão para renovar nossos compromissos nacionais, particulares e coletivos, para impedir novas infecções por HIV entre nossos jovens, e com relação às pessoas que estão sendo deixadas para trás. É hora de transformar essa resposta para torná-la verdadeiramente inclusiva.

A menos que lidemos diretamente e ousadamente em termos de prevenção, a última etapa de nossa jornada será a mais difícil para nós. Devemos fazer a última etapa como se fosse a primeira etapa. Se não preservarmos a equidade e a dignidade das pessoas, não teremos sucesso. Para realizar nossas ambições, devemos colocar em primeiro plano todas as pessoas que estão sendo deixadas para trás.

Obrigado pelo seu compromisso pessoal com esta jornada e por estar conosco hoje.

MICHEL SIDIBÉ
DIRETOR EXECUTIVO DO UNAIDS

Baixe o discurso do Diretor do UNAIDS aqui.