Como o programa de HIV da cidade de Quezon se tornou modelo para outros municípios filipinos

A Klinika Bernardo, popularmente conhecida como a Sundown Clinic (Clínica do Pôr-do-Sol, na tradução livre para o português) está localizada ao longo de uma movimentada rodovia. Ela funciona das 15:00 às 23:00, permitindo que um número máximo de clientes a visitem. “Nós atendemos a homens que fazem sexo com homens de todo o país”, explica Leonel John Ruiz, médico-chefe da Klinika Bernardo, nas Filipinas. “Apenas 40% dos nossos clientes são da Cidade de Quezon.”

Em 2012, a Cidade de Quezon tornou-se a primeira nas Filipinas a abrir uma clínica fornecendo serviços para homens que fazem sexo com homens e pessoas transgênero. Desde o início, a demanda por serviços na Clínica do Pôr-do-Sol foi alta. Foram realizados quase 250 exames de HIV e serviços de aconselhamento pré e pós-testagem nos seus primeiros dois meses de operação e 18 pessoas apresentaram resultados positivos para o HIV.

Embora as relações do mesmo sexo sejam legais nas Filipinas, existe um elevado grau de estigma e discriminação em relação aos homens que fazem sexo com homens. O medo de ter sua sexualidade revelada e ser rejeitado impede muitos homens de acessar serviços tradicionais de saúde. Estudos realizados por autoridades de saúde da cidade mostram que dois terços dos homens que fazem sexo com homens na Cidade de Quezon nunca fizeram um teste de HIV.

“Este é o meu primeiro teste de HIV. Não sei o que esperar “, disse um jovem ao preencher os formulários de inscrição. “Eu tentei ler sobre o HIV, então eu tinha algumas informações básicas, mas demorou um tempo para eu criar a coragem de vir aqui.”

O jovem achou a equipe acolhedora e apta a acalmá-lo. As pessoas que recebem resultados positivos para o HIV recebem aconselhamento sobre medicamentos antirretrovirais e são acompanhadas pelo pessoal da clínica durante os meses iniciais de tratamento antirretroviral, que é gratuito nas Filipinas.

A Cidade de Quezon agora opera três Clínicas do Pôr-do-Sol e, nos últimos anos, aumentou significativamente os investimentos em seus programas de HIV. Com cerca de 3 milhões de habitantes, a Cidade de Quezon é o centro urbano mais populoso das Filipinas. O município decidiu que controlar a crescente epidemia de AIDS é uma de suas maiores prioridades.

O prefeito Herbert Bautista incentivou os moradores da cidade a conhecer o seu estado sorológico de HIV, e fez um teste de HIV em público. O esforço da cidade para ampliar a testagem de HIV entre os homens que fazem sexo com homens tem sido bem-sucedido. Quarenta por cento dos testes de HIV da cidade ocorrem nas Clínicas do Pôr-do-Sol, demonstrando efetivamente que a remoção das barreiras aumenta o acesso aos serviços.

“Desde que começamos a operar, a perspectiva mudou definitivamente”, disse Leonel. “Antes, tínhamos dificuldade em convidar pessoas para se testarem. Agora, a maioria dos nossos clientes chegam espontaneamente. As pessoas estão buscando informações pessoalmente e ativamente.” Vários outros governos de cidades locais estão começando a adaptar o modelo da Cidade de Quezon em seus municípios e estabelecendo suas próprias clínicas.

A equipe da Clínica do Pôr-do-Sol fala com orgulho de suas conquistas, mas eles esperam fechar as portas do estabelecimento um dia. “Eu rezo antes de dormir”, disse Adel, a única educadora feminina na Klinika Bernardo. “Espero que um dia não haja ninguém que precise dos nossos serviços. É para isso que estou trabalhando.”

ODS 17: Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável

No início da resposta à AIDS, na ausência de opções de tratamento e com o grande aumento das pessoas afetadas pelo HIV, ficou claro que uma resposta puramente clínica à epidemia não seria suficiente. Familiares, organizações religiosas e alianças de pessoas afetadas pelo HIV resolveram intervir para fazer o possível para que as pessoas ao menos morressem com dignidade, para apoiar os órfãos, cônjuges e dependentes deixados para trás e lutar por uma nova forma de fazer as coisas. Grupos de pessoas muito diferentes ligadas pela experiência compartilhada do medo, estigma e horror do HIV e da AIDS se reuniram para exigir que a resposta fosse além das clínicas, hospitais e do serviço formal de saúde.

Abraçar e expandir o conceito de parceria foi revolucionário, não para AIDS, mas também em uma esfera de desenvolvimento mais amplo. As parcerias continuam a ser centrais na resposta à AIDS. A coordenação e a colaboração entre uma ampla gama de parceiros, incluindo profissionais do sexo, cientistas e assistentes sociais, ajudam a identificar e usar os conhecimentos de forma mais eficaz, superar barreiras mais rapidamente e alocar recursos de forma mais eficiente. As parcerias aumentam a conscientização e o conhecimento e criam uma massa crítica de poder e apoio que ajudam a influenciar os elaboradores de políticas e estimulam as partes interessadas a agir.

A história da Clínica Pôr-do-Sol na Cidade de Quezon, nas Filipinas, incorpora o ODS 17—fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável. O sucesso da clínica original e a adição subseqüente de mais duas clínicas demonstram como a inclusão continua a definir a resposta à AIDS e a inspirar parcerias bem-sucedidas entre uma grande diversidade de partes interessadas.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável amplia para uma escala global o que a resposta à AIDS tem feito há 30 anos—uma abordagem multissetorial baseada em direitos e centrada nas pessoas que aborda os determinantes da saúde e do bem-estar. Esta história faz parte de uma série de histórias de vida que destacam os vínculos entre o HIV e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados ao tema, cada uma contada da perspectiva pessoal das pessoas afetadas pelo HIV. A série traz uma ideia de como o HIV está interconectado com os ODS e quão interdependentes os ODS são uns dos outros. Mais importante ainda, as histórias nos mostram o progresso alcançado com a resposta à AIDS e o caminho que ainda nos falta percorrer com os ODS.