Palavras não são neutras: ‘por que ainda estamos falando sobre estigma?’, pergunta jornalista.

“Se o tema do HIV e da AIDS já é tratado há tanto tempo, por que ainda estamos falando sobre estigma?”. A pergunta é de Nathan Fernandes, jornalista e editor da revista Galileu. Ele foi um dos convidados do UNAIDS para participar da roda de conversas Palavras não são neutras: intervenções para reduzir o estigma da AIDS no Brasil, realizada pelo UNAIDS durante o 11º Congresso de AIDS e 4º Congresso de Hepatites Virais (Hepaids 2017), em Curitiba.

Autor da reportagem de capa da edição de agosto da Revista Galileu Eu vivo com HIV e o preconceito é a pior parte—que trouxe uma ampla perspectiva sobre o impacto do estigma e da discriminação sobre pessoas que vivem com HIV—, Fernandes falou sobre o tema Abordagem do HIV na mídia impressa. O debate marcou o lançamento do Guia de Terminologia do UNAIDS, traduzido e adaptado para o português.

’Falar que o uso de um termo ou expressão é proibido não funciona. Acaba gerando um sentimento contrário, incentivando a pessoa a desafiar essa proibição e seguir usando essas palavras”, disse Fernandes durante o debate. “No caso do jornalista, ele deve sempre manter em mente que está lidando com a vida das pessoas e, por isso, a escolha das palavras e expressões mais adequadas é fundamental.”

Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, Fernandes, 29 anos, já foi repórter da revista Playboy e colaborou com publicações como Men’s Health, Superinteressante, Veja e Visão, de Portugal. Atualmente é editor da revista Galileu, onde trabalha com questões ligadas aos direitos humanos, com foco em questões LGBTI. Em 2016, recebeu o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

“Durante nove meses, conversei com pessoas vivendo com HIV e com pessoas que trabalham nessa área, para fazer a reportagem”, conta o editor da Galileu. “Isso foi uma exceção, quase um privilégio. Mas posso dizer que a falta de tempo e de espaço talvez expliquem porque temos reportagens tão negativas sobre HIV até os dias atuais.”

Para a Diretora do UNAIDS no Brasil, Georgiana Braga-Orillard, ao invés de apedrejar as pessoas quando elas erram no uso das palavras e expressões, temos que fazer um trabalho de insistência e de conscientização. “Algumas palavras machucam, enquanto outras têm o poder de trazer as pessoas para perto de nós”, disse. “Temos que nos lembrar sempre que a linguagem também evolui. Ela é um espelho do que pensamos.”

O debate, que contou com a presença de cerca de 60 pessoas na sala Guarapuava do ExpoUnimed, local onde aconteceu o Hepaids2017, foi transmitido ao vivo pela conta do Facebook do UNAIDS Brasil. A transmissão, que foi compartilhada por páginas como Põe na Roda, Projeto Boa Sorte, Revista Galileu, Gabriel Comicholi, os Discordantes, teve mais de 9 mil visualizações e um alcance de quase 40 mil pessoas.

Veja também a cobertura que o UNAIDS Brasil fez do evento pelo Twitter, através do Storify: